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Teatro/Mercadoria # 1
Guilherme Balza
“Experiência cênica”, “obra em processo”, “situação teatral”, “teatro-documentário”... Talvez não exista um termo preciso que defina Teatro/Mercadoria # 1, um dos 15 trabalhos da Kiwi Companhia de Teatro, fundada há 12 anos em Curitiba. Uma das propostas do grupo, inclusive, é justamente se distanciar das definições redutoras, das rotulações convencionalistas. Tanto é assim que eles se recusam a chamar a apresentação de “peça” ou, pior ainda, de “espetáculo”.
[“O espetáculo é o contrário do diálogo.” (Guy Debord)]
Teatro/Mercadoria # 1 trabalha com diversas linguagens e formatos – festa, sarau, intervenção, comédia, farsa, instalação, performance e happening – para discutir o processo de mercantilização da vida contemporânea e buscar uma reflexão contínua e inquieta sobre o papel da arte, seus limites e suas possibilidades, em um mundo onde "tudo e todos têm seu preço”.
[“Não é possível estar dentro da civilização e fora da arte.” (Rui Barbosa)]
A apresentação parte de fragmentos de autores clássicos do pensamento de esquerda, como Walter Benjamin, Guy Debord, Theodor Adorno, Ernst Bloch, Pier Paolo Pasolini, Bertolt Brecht, Mao Tsé-tung, Klaus Mann, Antonio Gramsci, Karl Marx, Che Guevara, Mario Benedetti, Rosa Luxemburgo e Georg Büchner.
[“A arte sem ideologia é vazia, não tem ‘simbolismo’, não tem um referente que a carregue de significado.” (Antonio Gramsci)]
Com o apoio teórico desse time de intelectuais, que nas suas obras refletiram sobre a relação Arte x Capital, a Companhia lança ao público questões recorrentes e de difícil resposta: “Existe um refúgio de vivência pura da arte, em oposição às exigências de mercadoria?”; “Que fronteiras possíveis delimitam os contornos entre a publicidade, a pornografia, a violência, o mercado e a produção dos bens simbólicos?”. “Existem ainda espaços de liberdade nos quais a arte não precisa se abdicar em favor da forma-mercadoria, integrada no fluxo “espetacular” e idiotizante do entretenimento?”
[“A Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente. Nesse sistema tudo se torna negócio, a arte torna-se um meio eficaz de manipulação. Ela traz consigo todos os elementos característicos do mundo industrial moderno, exercendo o papel específico de portador da ideologia dominante. O homem é mero instrumento de trabalho e de consumo.” (Theodor Adorno)]
A idéia é desde o início quebrar a expectativa de uma obra fechada e verticalizada. Cada espectador escolhe o lugar para posicionar sua cadeira em pleno palco. Os equipamentos de iluminação, projeção e sonoplastia são operados aos olhos do público, assim como a construção das cenas e ambientes.
["Não ter partido, em arte, significa apenas pertencer ao partido dominante.” (Bertold Brecht)]
Essa participação intesa do público faz com que cada encenação seja única, transitória e diferente da outra. Para acentuar ainda mais o caráter colaborativo, nas apresentações a Companhia convida membros de movimentos sociais, videoperformers, profissionais ligados à cultura livre, entre outros, para atuarem no palco.
[“A independência da arte - para a revolução; a revolução - para a liberação definitiva da arte.” (Leon Trótsky e André Breton)]
Segundo o diretor Fernando Kinas, "em Teatro/Mercadoria # 1 a forma é um precipitado, provisório e inquieto, dos conteúdos urgentes postos à exame. Assim como o jardim do filósofo da Antigüidade, queremos criar um espaço poético, um campo de força, onde elementos críticos e lúdicos possam recombinar-se, convidando ao movimento”.
[“O tratamento dado é a crítica contundente ao narcisismo corpólatra, ao consumismo, ao sistema 'modelo/manequim/atriz', ao feitiço televisivo, ao lixo publicitário, ao sexismo grotesco das bundas e peitos, ao cinismo pós-moderno, ao comércio da ética e das consciências. Tratamos da perenidade da frustração diante da abundância prometida. Mas antes que a extinção nos engula, está feito o convite para um mundo de possíveis, em oposição ao mundo único, monocromático e contábil, que absolutamente não nos convém.” (Kiwi Companhia de Teatro)]
Elenco: Eduardo Contrera, Elaine Giacomelli, Fabio Salvatti, Fernanda Azevedo, Fernando Kinas, Gavin Adams, Lori Santos, Márcia Bechara e Valéria di Pietro / Direção: Fernando Kinas / Autores "canibalizados": Walter Benjamin, Guy Debord, Theodor Adorno, Ernst Bloch, Pier Paolo Pasolini, Bertolt Brecht, Klaus Mann, Antonio Gramsci, Karl Marx, Mario Benedetti, Rosa Luxemburgo e Georg Büchner / Direção musical: Eduardo Contrera / Músicas Originais: Demian Garcia / Tratamento de imagens: Gavin Adams / Iluminação: Rodrigo Ziolkowski / Fotos: João Marcos Azevedo, Stefan Schmeling e Caroline Nocetti / Programação visual: Paulo Emílio / Produção: Luiz Nunes.
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